Ofertório de desejos
Quando o caixão de Samuel sumiu na janela do crematório, Ruth sorriu. Não com o rosto, mas com partículas invisíveis de alívio que lhe causavam uma estranha excitação. Aos 49 anos, estava, enfim, livre daquele casamento que nunca poderia ter acabado senão com a morte do marido. Eram felizes demais para um divórcio, mas infelizes o suficiente para nunca terem gozado juntos um única vez durante 27 anos de vida em comum. Nos últimos dois anos, com o agravamento da doença de Samuel, Ruth passou a fazer planos em segredo dos homens que desejaria levar para a cama. Por fora, porém, manteve a postura de esposa recatada e do lar, coordenando pessoalmente os horários dos remédios, a alimentação sem sal. Ninguém desconfiaria da mulher serena e devota à família e à igreja, sempre disposta a dirigir como voluntária para os eventos de caridade promovidos pela pastoral. Ruth voltou do velório sozinha no banco de trás do taxi. Seus filhos insistiram para levá-la até seu apartamento, mas ela a...