Ofertório de desejos

Quando o caixão de Samuel sumiu na janela do crematório, Ruth sorriu. Não com o rosto, mas com partículas invisíveis de alívio que lhe causavam uma estranha excitação. Aos 49 anos, estava, enfim, livre daquele casamento que nunca poderia ter acabado senão com a morte do marido. Eram felizes demais para um divórcio, mas infelizes o suficiente para nunca terem gozado juntos um única vez durante 27 anos de vida em comum.

Nos últimos dois anos, com o agravamento da doença de Samuel, Ruth passou a fazer planos em segredo dos homens que desejaria levar para a cama. Por fora, porém, manteve a postura de esposa recatada e do lar, coordenando pessoalmente os horários dos remédios, a alimentação sem sal. 
Ninguém desconfiaria da mulher serena e devota à família e à igreja, sempre disposta a dirigir como voluntária para os eventos de caridade promovidos pela pastoral.

Ruth voltou do velório sozinha no banco de trás do taxi. Seus filhos insistiram para levá-la até seu apartamento, mas ela alegou que gostaria de viver em profundidade a solidão dos primeiros dias do seu luto. No fundo, só pensava em chegar em casa e passar horas no chuveiro sem que Samuel gritasse seu nome da sala a cada cinco minutos.  


No banheiro escuro, a água escorria por seu corpo morno 
ainda entranhado pelo cheiro da morte. Ela apalpou os seios ainda firmes e apertou os bicos com força. Eram seu ponto fraco. Há quanto tempo não recebia mordidas que lhe deixavam inteiramente molhada? O toque lhe fez abrir ligeiramente as pernas. Não lembrava qual a última vez que havia se masturbado. Ruth pegou a ducha e acionou-a sobre seu clitóris. Seu tronco se contorceu como se um feixe de energia o tivesse percorrido por inteiro. Não demorou para gozar em pé, encostada na parede. Pela primeira vez em meses, ela sentiu que estava viva e queria ser comida como nunca fora por Samuel. 

Ainda úmida do banho, Ruth deitou na cama solitária e enfiou um a um os dedos em si mesma. Primeiro com delicadeza, depois com cada vez mais força e ritmo. Era um animal no cio, gemendo alto pela primeira vez. "Quero ser fodida de verdade! Quero um homem que cheire minha boceta inteira e me lamba até o cu. Quero sentar gostoso num pau grande, cheio de nervos!". Ruth não reconhecia a própria voz, embargada pela vitalidade do sexo adormecido que acabava de acordar.
(Continua)